Avenida dos Aliados
Psicomorfoses

Panorâmica da cidade do Porto, vista a partir do lado oriental da Torre dos Clérigos
Do cimo da torre, a cidade ganha a magia de diorama e a cor inédita dos ocres dos telhados.
Cada um dos edifícios em destaque parece existir só para si, de costas voltadas para os outros, mas com um carácter próprio.
A Sé, mais idosa e alta, observa-nos arregalada, com a rosácea aberta, espantando-se de tudo e sem saber porquê.
O Paço Episcopal, largo e masculino, mostra-se indiferente aos arrufos da Igreja de São Lourenço, enquanto que esta se melindra de vez e vira-lhe a fachada fina de delicada.
Pendendo para a direita, o arco da ponte parece um movimento de catraio que salta no ar, com os olhos postos em Gaia, ao mesmo tempo que encharca as botas no Douro.
Por sua vez, o quartel da Serra do Pilar, longo e distanciado, recorda um oficial de artilharia na reforma, dormindo de boca aberta. Essa grande boca, onde um qualquer tique nervoso lhe deixou os lábios arreganhados, deixando os dentes sempre à mostra.
Cá em baixo, na nossa margem, o casario da Mouzinho da Silveira é um conjunto de velhas que coscuvilham; sobretudo aquelas duas, na esquina com a Rua do Souto, tagarelando sobre tudo e sobre todos, enquanto lançam, sem discrição, aquele olhar de soslaio cá para a torre, como que repreendendo o fotógrafo lá no alto.
MBP
Tempos de Reconstrução

A derrocada e incêndio dos Guindais, 27 de Janeiro de 1879. Gravura de Soares dos Reis.
Ainda não tinha feito um mês completo e o ano estava já a correr mal. Como se fosse um desígnio de Velho Testamento, os Guindais desabaram sobre o rio.
Rapidamente, por entre os destroços das casas, deflagrou um incêndio imenso que se prolongou durante toda a tarde, reforçando a impressão apocalíptica que se sentia no espírito dos sobreviventes e tantos outros que se juntaram para ver o desastre (é sinistramente consensual o apelo que as catástrofes exercem sobre as multidões). Nem no Douro se estava a salvo, uma pequena embarcação despedaçou-se, logo depois de ter sido atingida por um rochedo perdido que rolou pela encosta. A
Ponte D. Maria II terá tremido um pouco, expondo toda a sua fragilidade pênsil.
Mais uma vez, aquele cantinho do mundo parecia ter atingido o fim das eras.
Os bombeiros, a polícia municipal, os estivadores da Ribeira, toda a gente vinha ajudar, vinham contar os mortos, salvar os vivos. Tudo parecia acabar ali.
E lá passou um dia difícil. Ao todo pereceram quatro ou cinco pessoas, ninguém sabe ao certo, mas dada a violência e a amplitude da derrocada, a tragédia poderia ter sido muito pior.
Hoje, tal como ontem, alguns percalços podem abalar-nos um pouco, foi o que aconteceu ao meu amigo e aliado
JRP, não pelas derrocadas do dia-a-dia, mas sim pelo enorme esforço de construir e reconstruir aquilo que realmente é prioritário nas nossas vidas; assim, provisoriamente (é claro que é provisoriamente), ficarei por cá sozinho, a deambular pela Avenida, tentando manter o tráfego minimamente organizado, minimamente fluente. Tentando partilhar aquilo que penso ser interessante com os leitores que se derem ao trabalho de ficar, os melhores leitores do mundo, os nossos.
MBP
Ferrugem.

A ponte Dona Maria como eu a vi, nestes dias de Outubro, com o carro em quatro piscas no meio da Ponte do Infante.
É com muita tristeza e com os olhos postos na ponte de ferro de Eiffel que me despeço da colaboração no
Avenida dos Aliados.
Por um conjunto de razões terrenas, é-me impossível manter a cadência quase diária de posts que a mim me impus nos últimos seis meses e meio da minha vida, pelo que, como não me apetece abandonar em morte lenta, encerro desde já a minha colaboração.
Não foi uma decisão fácil, muito, mas mesmo muito, longe disso. Por entre a centena e meia de visitas diárias que este blog geralmente tem, entre os quais se encontram muitos amigos pessoais, conheci muita gente inteligente e sabedora com quem me cruzo na rua e não reconheço fisicamente. Foi um desafio fantástico que cumpri como podia, partilhando generosamente parte do pouco que humildemente vou conhecendo da minha cidade, sempre acalentado pelos maravilhosos incentivos que ia recebendo de tantos de vós. As saudades já são tantas…
Desde aquela noite em que ajudei a conceber este espaço, num primeiro andar obscuro da Rua de Passos Manuel, o blog cresceu interminavelmente. Mas tal como a Ponte Dona Maria, que se mantém esbelta e formosa no seu lugar ainda que não esteja a ser utilizada, tive por aqui o meu tempo que, infelizmente, sou obrigado a aceitar que terminou, devido a vários factores de ordem pessoal.
Parto convicto que o meu amigo e aliado (também de sempre!)
MBP saberá encontrar o melhor caminho para o blog que construímos juntos, podendo passar obviamente pela inclusão de novos colaboradores (e tantos foram os que escrevendo para o Avenida se mostraram capazes de fazer melhor que eu...).
Quero que saibam que estou imensamente grato pela atenção que me foram prestando e espero que os textos que deixo no arquivo do
Avenida dos Aliados possam servir de auxílio ou inspiração para curiosos ou estudiosos e que, na sua ínfima dimensão, honrem a cidade do Porto.
Deixo-vos verdadeiramente emocionado e até angustiado, com um dos meus poemas preferidos sobre a Invicta.
"
sobre a minha cidade falei-te ontem, mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre
a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi
violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,
maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.
que percorreste as pontes que da minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela" -
Vasco Graça Moura
Obrigado a todos e até sempre.
JRP
Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.